A desnutrição em pacientes com doenças cardíacas agudas, especialmente aqueles com insuficiência cardíaca (IC), é uma preocupação crescente na área da saúde. Estudos indicam que a prevalência de desnutrição entre esses pacientes pode variar de 20% a 60%, dependendo dos critérios diagnósticos utilizados e da população estudada. Essa condição não apenas exacerba os déficits nutricionais preexistentes, mas também piora o prognóstico dos pacientes, tornando a identificação e a intervenção um desafio significativo na prática clínica, especialmente para os mais idosos.
Um novo documento da American Heart Association (AHA) oferece diretrizes essenciais para a identificação da desnutrição em diferentes cenários clínicos, com o objetivo de melhorar as intervenções e os desfechos para esses pacientes. Este artigo discute os principais pontos abordados pelo documento, que utiliza os critérios do Global Leadership Initiative on Malnutrition (GLIM) para o diagnóstico.
Diagnóstico de Desnutrição em Pacientes com Doenças Cardíacas
O diagnóstico de desnutrição em condições cardíacas agudas se baseia nos critérios do GLIM, que envolve uma ferramenta de rastreio seguida por uma segunda ferramenta para diagnóstico e definição da gravidade, que é dividida em moderada ou grave. Essa classificação é realizada com base na porcentagem da perda de peso, no índice de massa corporal (IMC) e na avaliação da musculatura esquelética.
Os critérios do CID (Classificação Internacional de Doenças) são diferentes dos do GLIM e, quando utilizados, mostram uma prevalência menor de desnutrição. Por exemplo, um estudo revelou prevalências de 12,6% e 23%, respectivamente, para os dois critérios. Além disso, a albumina, frequentemente usada como marcador de rastreio, não é considerada um bom parâmetro, pois é influenciada por vários fatores e tem uma meia-vida longa, tornando-a pouco responsiva a mudanças agudas.
Outro aspecto importante é a coexistência entre desnutrição e perda de musculatura esquelética em pacientes com obesidade, que pode apresentar um IMC elevado. É fundamental diferenciar entre desnutrição, caquexia, sarcopenia e fragilidade, que são condições fenotipicamente diferentes, mas interconectadas, e que podem necessitar de intervenções específicas.
Fisiopatologia da Desnutrição e Caquexia
Pacientes com desnutrição frequentemente apresentam consumo inadequado de macronutrientes e micronutrientes, essenciais para o suporte energético e processos fisiológicos. O consumo insuficiente é aquele que fica aquém do recomendado, enquanto o consumo deficiente refere-se a um nível tão baixo que resulta em doença. Com o tempo, isso pode levar ao consumo da massa magra, comprometendo a função imunológica e a cicatrização.
Na caquexia cardíaca, o catabolismo e o turnover acelerado de proteínas ocorrem juntamente com a perda de massa livre de gordura, resultando em um aumento da excreção de nitrogênio. Esses fatores são consequência da desregulação neuro-humoral na IC avançada, inflamação crônica e demandas aumentadas por substratos devido à insuficiência cardíaca.
Os fatores de risco para desnutrição em pacientes com doenças cardiovasculares incluem idade avançada, falta de apetite e aumento da demanda metabólica. Medicamentos como digoxina e amiodarona podem alterar o paladar e causar náuseas, prejudicando a ingestão alimentar, enquanto outras restrições podem ser decorrentes de orientações de uso de medicamentos ou comorbidades como diabetes e doença renal.
Intervenções Nutricionais e Suporte
Para pacientes com doenças cardiovasculares estabelecidas, algumas dietas, como as dietas DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension), do Mediterrâneo e vegetarianas, têm benefícios estabelecidos, principalmente na prevenção primária. A restrição de sódio é frequentemente recomendada, mas não há evidências robustas de que isso reduza desfechos adversos em pacientes com IC, levando a uma tendência por dietas mais permissivas e personalizadas que atendam às necessidades calóricas e nutricionais dos pacientes.
Um estudo significativo, conhecido como EFFORT, comparou dietas individualizadas a dietas padronizadas em pacientes internados. Os resultados mostraram que a dieta individualizada reduziu a mortalidade, internações em UTI e complicações significativas em 30 dias. Embora esse estudo não tenha sido exclusivamente focado em pacientes com doenças cardiovasculares, o grupo de IC apresentou uma mortalidade significativamente menor, especialmente entre aqueles com maior risco nutricional.
A avaliação das necessidades energéticas pode ser realizada por meio de calorimetria indireta, que mede a taxa metabólica em repouso de forma não invasiva, facilitando uma nutrição individualizada, especialmente em pacientes críticos. No entanto, esse exame pode ser caro e não está amplamente disponível.
O Caminho a Seguir
A desnutrição em pacientes com doenças cardíacas agudas é uma questão complexa que exige uma abordagem multifacetada. A otimização nutricional perioperatória é crucial para a recuperação, e intervenções nutricionais pós-alta têm mostrado potencial em reduzir reinternações e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Embora existam diretrizes e recomendações, ainda há muito a ser compreendido sobre o suporte nutricional em pacientes com doenças cardíacas. A avaliação nutricional abrangente de cada paciente é fundamental para o sucesso do tratamento e para a melhoria dos desfechos clínicos. A implementação de protocolos de suporte nutricional deve ser uma prioridade nos cuidados com pacientes internados, especialmente em unidades de terapia intensiva.
Este tema continua a ser um foco importante de pesquisa e desenvolvimento, pois a nutrição adequada pode impactar significativamente a saúde e a recuperação de pacientes com doenças cardíacas. Comentários e compartilhamentos são bem-vindos, pois ajudam a aumentar a conscientização sobre a importância da nutrição no manejo de doenças cardíacas.
Disclaimer: Este conteúdo é informativo e não deve ser considerado como aconselhamento médico profissional.