O Brasil está experimentando um aumento significativo em sua expectativa de vida, que alcançou 76,6 anos em 2024, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Este avanço é atribuído a melhorias em cuidados médicos, vacinação em massa e maior acesso a tratamentos. Ao mesmo tempo, a população com mais de 60 anos está crescendo rapidamente, alterando a estrutura etária do país. Contudo, a questão que se torna cada vez mais relevante é: “como estamos vivendo esses anos adicionais?”
A longevidade não se resume mais a sobreviver a doenças, mas envolve aspectos como autonomia, mobilidade, cognição e independência funcional. O médico do esporte e ortopedista Pedro Ribeiro, da clínica Orion, enfatiza que a verdadeira autonomia vai além de simplesmente viver mais. Para ele, “é viver sem depender de alguém para levantar da cadeira, subir escadas ou carregar peso”. O exercício físico desempenha um papel crucial na preservação da massa muscular, coordenação, capacidade cardiovascular, equilíbrio e densidade óssea.
As diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendam que todos os adultos realizem entre 150 e 300 minutos de atividade aeróbica moderada a vigorosa por semana, o que ainda está distante da realidade de muitos. A partir dos 30 anos, a perda de massa muscular começa gradualmente, e essa diminuição se acelera após os 50 anos, podendo levar à sarcopenia, que é a perda significativa de força e função muscular.
A Importância do Treino de Força
Ribeiro afirma que o treino de força é indispensável para garantir a independência funcional. “O aeróbico é importante para o sistema cardiovascular, mas a força é o que assegura a independência”, ressalta. A musculação não apenas preserva o metabolismo e protege as articulações, mas também reduz o risco de quedas e melhora a sensibilidade à insulina. A perda muscular é um processo natural, mas pode ser revertida. Mesmo após os 70 anos, é possível ganhar massa muscular, pois o corpo responde ao estímulo em qualquer idade.
O especialista também destaca que a construção de uma base sólida de massa muscular e óssea deve começar cedo, já que o pico ocorre até os 30 anos. “Longevidade começa cedo”, resume. Para treinar visando a longevidade, é necessário um planejamento que foque em força, mobilidade, estabilidade e prevenção de quedas.
A Nutrição como Base do Envelhecimento Saudável
Além do exercício, a alimentação desempenha um papel vital no envelhecimento saudável. A nutricionista Tainara Abreu explica que a nutrição esportiva deve ser aplicada não apenas a atletas, mas a qualquer pessoa que deseja envelhecer com autonomia. A proteína é fundamental nesse processo, pois com o envelhecimento, ocorre a resistência anabólica — o músculo responde menos ao estímulo proteico, aumentando a necessidade de ingestão de proteínas. Adultos acima de 50 anos podem precisar de 1,2 a 1,6 gramas de proteína por quilo de peso por dia, podendo chegar a 2g/kg em casos específicos.
Carla de Castro, outra nutricionista, complementa que não existe alimento milagroso para garantir a longevidade. O que realmente importa é o padrão alimentar diário, que deve ser baseado em alimentos in natura ou minimamente processados, ricos em fibras e proteínas de qualidade. Além disso, uma alimentação que prioriza fibras e antioxidantes pode ajudar a reduzir a inflamação crônica, um fator ligado a doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e declínio cognitivo.
O Papel da Disciplina no Envelhecimento Saudável
Na busca por longevidade, muitas pessoas caem na armadilha de soluções rápidas, como dietas restritivas ou treinos extenuantes sem orientação. Carla adverte que essas abordagens extremas podem prejudicar o processo de envelhecimento saudável, pois reduzem a massa muscular e alteram hormônios. A longevidade requer um equilíbrio sustentável na alimentação e na atividade física.
Suplementos como whey protein, creatina e vitamina D podem ser benéficos, mas não substituem uma alimentação adequada. O sono de qualidade, o manejo do estresse, e a manutenção de relações sociais também são fundamentais para um envelhecimento saudável. Dormir mal pode afetar a produção hormonal e aumentar os níveis de cortisol, prejudicando a recuperação muscular e favorecendo o acúmulo de gordura corporal.
A saúde mental também é um fator essencial na longevidade. O engajamento em atividades significativas e a manutenção de vínculos sociais influenciam a saúde geral e a qualidade de vida. Portanto, envelhecer com autonomia significa também cuidar da memória, cognição e equilíbrio emocional.
Por fim, a longevidade não depende apenas de fatores genéticos ou avanços médicos, mas é o resultado de uma soma de decisões diárias. Ribeiro aconselha que se comece com pequenos passos, como dois dias de treino de força por semana e caminhadas rápidas. A disciplina, mais do que a motivação, é o que realmente constrói um futuro de qualidade.